VIVER On-line

semtc3adtulo

Revista TPM

Pisca uma vez, duas, três vezes. A luz se apaga. Os laptops silenciam-se e, em coro, ouve-se: “Aaahhhh”. Foi só um susto. A luz volta, o computador religa. Sem conexão. Sem internet. Sem MSN. Sem Twitter. Sem Orkut. Sem Skype. O pânico se instaura. Um, dois, três, cinco, dez minutos. Nada. E-mails não chegam, mensagens não saem, as informações não se atualizam. Pau na rede. Desorientadas, as pessoas levantam de suas cadeiras sem saber como se ocupar. Ufa, o celular funciona! Começam, então, a ligar desenfreadamente para informar, a quem interessa – ou não –, que estão desconectadas do mundo virtual. “Qualquer coisa estou no celular”, alguém avisa para o outro lado da linha. Entram em cena iPhones, BlackBerries, Smartphones: eles tocam, vibram, acendem, chamam. Seus donos agradecem; e-mails chegam, mensagens reaparecem, as ligações não param. Respiram, enfim, aliviados: estão on-line.

 Hoje é assim. Não se vive mais off-line. Da mesma maneira que os bipes, as chamadas e os toques soam a todo minuto, a cabeça está sempre a mil. Olhos atentos, ouvidos ligados, voz em alto e bom som, mãos discando, digitando… Os radares do corpo não desligam e são estimulados pelas tecnologias, que proporcionam 24 horas de conectividade, onde quer que seja. Sua alma nunca se aquieta. Já parou para pensar há quanto tempo você não fica em silêncio?

 Silêncio = tortura
O filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC e autor de sete livros sobre comportamento humano, explica o ruído: “Hoje em dia as pessoas precisam de barulhos contínuos para distrair o cérebro. Tem gente que não se suporta e precisa falar sem parar para não ficar com os próprios pensamentos”. Especialista em antropologia cultural, Mario Sergio conta que o silêncio não é algo positivo em nossa sociedade. “Ao contrário do Oriente, onde o silêncio é valorizado e considerado sinal de modéstia, de recato e de virtude, no Ocidente a quietude é sinônimo de solidão, de que alguma coisa está errada.” Ele lembra de como somos estimulados a falar desde cedo e de como uma das coisas mais admiradas numa criança é o fato de ela começar a balbuciar as primeiras palavras precocemente: “Falar é um sinal de independência”. E pode ser também um sintoma de perda da noção de interioridade, explica Eurico Cursino dos Santos, sociólogo da Universidade de Brasília. “A espiritualidade moderna torna-se tão mesmerizada pela tecnologia, que as pessoas se esquecem de si mesmas e de quão valiosas são as coisas simples da vida. O resultado disso é que as verdadeiras passagens, aquelas que devem ser festejadas, acabam passando batido por excesso de estímulos tecnológicos”, esclarece o especialista.

 Cíntia Ferro, 31 anos, entra em pânico quando seu Nextel não toca. Estranha ninguém procurá-la. “Penso: ‘Será que estou perdendo alguma coisa?’. O sentimento é esse”, confessa a gerente de marketing, que, por mês, vê a conta do celular alcançar os R$ 1.500. “Sou ligada 24 horas, tenho uma vida social intensa, minha cabeça não desliga. Mas tenho plena consciência de que isso me estressa e cansa as pessoas que estão perto de mim”, assume.

Há nove meses, a produtora de áudio Maria Fernanda Bastos, 36 anos, viciou-se em postar comentários no Twitter – rede virtual que ficou famosa porque seus usuários, que só podem escrever posts de no máximo 140 toques, contam coisas corriqueiras e são “seguidos” por outros usuários. “É muito esse lance de você ser aceito. Ser seguido é um status. Não tem quem fale: ‘Estou no Twitter mas não importa quem me siga’. Lógico que importa”, solta a produtora, que não desgruda do laptop nem no sítio. “Não consigo parar de falar. Por exemplo, você queima o dedo e, antes de passar remédio, escreve lá ‘queimei o dedo no fogão’”, exemplifica Maria Fernanda.

 Maria Lucia Stein, mestre em psicologia social e institucional pela UFRGS e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, chama a atenção para a falsa idéia de estar realmente conectado. “Pensar que você está sendo acompanhado por tanta gente produz um certo conforto. Mas, se olharmos para 140 caracteres ou 200, 300 seguidores, quem realmente está testemunhando algo da sua vida? Os recursos tecnológicos são, na verdade, um fenômeno para dar conta da fragilidade humana”, teoriza Maria Lucia.  

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


%d blogueiros gostam disto: